Apocalipse

O relógio de cuco marcava três da manhã quando Dean entrou pela porta da frente de minha casa. Carregava em sua jaqueta desbotada – que cobria aqueles seus braços trêmulos e já muito marcado das várias agulhas de muitas historias passadas – a moça inconsciente e semidesnuda que logo largou em meu sofá.  Olhou para mim, depois para ela e de volta para mim, mas nada disse. Foi direto à cozinha, ligou o fogão e colocou água em fervura. Não tenho certeza se ele usou papel melitta ou o pano de secar os pratos para filtrar o café. Tanto faz. Era aquele espirito, aquele vigor, aquela independência aquele sentimento de irresponsabilidade controlada que tanto me encantava em Dean. Eram muitos aqueles.

– Vamos – ele disse, assim que terminei de beber.

– Para onde?

– Caçar os demônios que te assombram, Alexia. Aqueles que não a deixam você dormir. Acabar com as suas preocupações. Ou não. Vamos, talvez, apenas escutar jazz – Dean respondeu.

– E a garota? Ela está morta? – eu encarava o corpo jogado a esmo no sofá já encardido de muitas décadas.

– Morta? Não, com certeza não; mas vai desejar estar, depois de hoje. Ao menos, nas primeiras horas em que acordar.

– O que ela tomou? – perguntei.

– Você quis dizer o que ela não tomou? Ela não tomou Tequila, Gin e cerveja. Não misturou Rivotril com Malibu e ela definitivamente não fumou cigarros. Vários, e de vários tipos.

A garota, antes desacordada, levantara de seu sofá-tumulo num frenesi de energia recuperada e dançava em piruetas descontroladas ao som de alguma musica imaginaria (eco).

– E ela? – insisti na pergunta, agora genuinamente preocupada com a integridade da minha sala de estar. Não era muito, mas era tudo que eu tinha. E se antes ela dormia, agora parecia como um carro que tentava andar na vertical.

– Só vamos – impôs a sua voz, mostrando não estar aberto a novas sugestões.

Fomos.

***

Eles dizem que o amor é para sempre. O seu para sempre é único que me importa.

– Que diabos você está sussurrando aí, Alexia? – ele me perguntou.

Não houve respostas, apenas pensamentos: ele sabia ser gentil, ao menos quando queria – naquela noite, por exemplo, com um sorriso meio debochado e um tanto quanto bobo, abriu a porta do passageiro do seu Impala preto para que eu pudesse sentar.

– Aperte o sinto baby – ele me disse – temos uma longa viagem pela frente. WOOO.

De fato, aquela Sin City que aparecia em minhas noites mal dormidas já estava se tornando um porre. Uma cidade melancólica, cinza, com florestas de mármore e cimento em uma paisagem repetitiva e imunda. Uma selva de pedras, como uma praga, que se espalhava em quarteirões novos nas madrugadas vazias.

Antes que outros devaneios viessem a minha mente, Dean colocou uma fita que comprara não fazia mais que três dias. Era um total sucesso.

– Here I go again, baby – não parava de repetir – Here I go again.

– Segure o volante, Alexia – e se virou em direção ao banco de trás, puxando aquela famosa caixa, metálica e toda amassada nas laterais e quase sem tinta em grandes áreas, de biscoito (que não via um genuíno biscoito fazia mais de 40 anos). Tirou de dentro um isqueiro e o Popeye. Esse era o nome de como chamávamos o pipe dele.

– Here I go again on my own.

Acelerando em ritmo constante, colocou a mão esquerda no volante enquanto usava a direita para acender o pipe preso entre as pernas. Então olhou para mim:

– Se fosse para você morrer hoje, o que gostaria de fazer?

– Não entendi – disse.

Ele insistiu:

– É uma pergunta simples, Alexia. Se você fosse morrer hoje, o que gostaria de fazer antes?

(PAUSA DRAMÁTICA)

– Aquela lanchonete que tem panquecas duplas ainda está aberta?

Ele soltou uma gargalhada. Era esse sentimento de irresponsabilidade controlada que tanto me encantava em Dean.

(insira aqui um final decente, contundente, condizente, não apressado, com nexo e que faça sentido com o que está escrito)

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